A "Sociedade do Cansaço" e as cisternas rachadas em Jeremias: Qual a relação?
No texto bíblico do profeta Jeremias, no capítulo 2, versículo 13, está escrito: "O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas rachadas que não têm água." Pra início de conversa, vamos ver o que significa uma cisterna. Arrasta pra cima!Usando toda a licença poética do mundo, até porque os tempos e a arquitetura são outros, cisterna é uma palavra bonita para poço, ou seja, um local construído abaixo da terra para armazenar água. Sabe aquele poço, famosa cacimba, da casa dos seus avós no interior que você chega bem na beirada e olha pra dentro pensando: "Rapaz, já pensou uma queda?" Pois é. Vamos imaginar esse poço/cacimba como essa cisterna.
É óbvio que para cumprir a função de armazenar e fornecer água essa cisterna precisa ser feita de uma forma que não possua nenhum vazamento. Se vaza a água, não tem água, né? Do mesmo jeito que você, quando criança, pegava a água do mar usando as mãos e, daqui a pouco, já não tinha uma gota pra contar história. Isso era o que os israelitas estavam fazendo: Iam até suas cacimbas esperançosos por uma quantidade de água que mataria sua sede, para só então perceberem que não havia uma gota sequer capaz de fazer isso.
Assim como nós, os israelitas provavelmente não haviam se dado conta de que estavam depositando sua confiança em uma série de circunstâncias sem garantia nenhuma: Não era certo ter água. E se fosse período de seca e as chuvas fossem raras? E se, por mais fundo que tivessem cavado, não tivessem encontrado uma fonte? E as rachaduras? Imprevistos atrás de imprevistos gerando incertezas atrás de incertezas.
Certo, mas... Sociedade do Cansaço? Aquele livro do filósofo coreano? Sim, esse mesmo! O famoso Byung-Chul Han, autor influente e um dos mais queridos entre os professores de redação e os vestibulandos em busca de repertórios! Será realmente possível uma relação entre esse livro e o texto de Jeremias? Eu gosto de pensar que sim.
Em seu livro "Sociedade do Cansaço", Byung-Chul Han vai falar sobre como estamos imersos em uma sociedade do desempenho, isto é, uma sociedade do muito realizar e do muito necessitar se sentir realizado. Ele vai falar, por exemplo, da positividade tóxica dos nossos dias e da ilusão de estarmos livres das amarras e cobranças dos outros sobre nós. E aí vem a pergunta: Será que estamos realmente tão livres assim?
Em determinada parte do livro, no finalzinho da página 46, o filósofo vai dizer: "(...) A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre." Na página seguinte, ele vai explicar: "Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos." O que isso significa? Significa que, numa contradição, nessa sociedade nós somos nossos próprios "senhores" ao mesmo tempo que somos os nossos próprios "servos". Não parece uma realidade tão liberta assim.
Vamos pensar na seguinte ilustração: Existem dois trabalhadores. Um presta serviço a uma outra pessoa; outro, é um empreendedor. É correto dizer que apenas um deles possui um patrão? Você pode querer dizer que sim; porém, na fantasia de acreditar que é livre por "não trabalhar para ninguém" o empreendedor se torna seu próprio chefe; a diferença é que ele não vai precisar necessariamente atender às expectativas de uma outra pessoa, mas as suas próprias. Entendeu a razão de essa sociedade se tornar uma sociedade cansativa?
Tomamos para nós mesmos a responsabilidade de sabermos e entendermos tudo sobre o nosso futuro. Trabalhamos, estudamos e nos relacionamos para isso! O que pode dar de errado? Bom, essas coisas são circunstanciais. Como o autor vai argumentar, de onde surgem os quadros depressivos e ansiosos? Nos tornamos "livres" dos outros à medida que ficamos reféns de nós mesmos; nossas próprias expectativas, nossas próprias construções, nossas próprias cisternas rachadas.
Voltando ao texto de Jeremias, repare que Deus se refere a Ele mesmo como "fonte de água viva". Uma fonte pode ser semelhante a uma cisterna? Um baldinho de praia pode ser semelhante a um mar? Eu penso que quando falamos de fonte, falamos de algo perene, constante, certo. Um reservatório só é um reservatório enquanto houver algo que possa reter e um copo só servirá o seu propósito original se tiver líquido para transportar. A fonte, diferente da cisterna, é viva! Ela flui e independe das circunstâncias. A água dessa fonte, nas palavras do Senhor, é viva. Se beber dela, nunca mais terá sede! A cacimba, então, perde sua importância, né?
Os israelitas aparentemente já estavam vivendo numa sociedade bem cansativa. Provavelmente eles acreditavam que, com suas próprias forças, atenderiam suas expectativas. Livres de Deus? Distantes Dele? Presos em si mesmos e em construções de reservatórios secos e transitórios. Servos de si mesmos, não entendendo que sua sede era da água que só Deus poderia oferecer; a água viva que independe das circunstâncias e dos nossos meros esforços humanos.
Nossa "Sociedade do Cansaço" e as cisternas rachadas são bem semelhantes. Acreditamos que por nosso próprio realizar estaremos seguros diante das incertezas da vida, enganamos a nós mesmos e nos frustramos: Nosso desempenho entra em crise quando nos damos conta que tudo é dádiva. O Senhor é o dono de tudo e, ao contrário de nós, Ele não se surpreende diante da mutabilidade da vida. Ao encontrar a mulher samaritana, Jesus diz que ele possuía uma água que mataria a sede dela para sempre!
E quanto a você e a mim? Somos realmente livres? Nossos esforços são suficientes para nos protegerem e guardarem diante da escassez das chuvas e das rachaduras de nossas cisternas? Nosso desempenho se reduz ao pó quando nos damos conta de que, apesar de nós, o Senhor tudo sustenta e a Ele tudo pertence. Somos tão efêmeros nessa terra quanto qualquer obra de nossas mãos. Graças a Deus por isso.
💖 "Eu sei, Senhor, que não está nas mãos do homem o seu futuro; não compete ao homem dirigir os seus passos." - Jeremias 10:23
E aí, faz sentido?


uau. Glória a Deus
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